terça-feira, 27 de julho de 2010

Perfeição

Nunca fui fácil, muito menos santa. Aprontava todas nos quintais que vivia, comendo frutas maduras, ajeitava armadilhas pra irmãs e primos, cuidando dos meus inúmeros bichinhos.
Criança de cidade, "criada" no interior, tem um quê de liberdade aprisionada no peito e quer fazer uma vida inteira em poucos dias de férias. Fazer valer a pena. Tudo valia a pena.
Meu avô costumava nos deixar acordados até de madrugada, contando "causos" de lobisomens, mula sem cabeça e luzes estranhas que acompanhavam andarilhos notívagos. Ficamos arrepiados da cabeça aos pés e cadê a vontade de dormir? E o medo de fechar os olhos e sentir aquela sensação estranha de ter alguém lhe espreitando no escuro?
Mas, pra mim, era aí que começava a melhor parte. Como ninguém dormia, ele nos levava para um passeio por toda cidade, parando em mercearias, armazéns, botecos... Víamos o dia amanhecer, sentados todos juntos na calçada da rua. Era simplesmente a perfeição.
Em uma dessas "aventuras", dos muitos conselhos que ele me deu, recebi o que levo comigo até hoje. Explicava o que já havíamos passado, o que ainda iria chegar.
Perguntei: "Vô, por que a gente faz diferente? Fica acordado todo dia pra ver o sol?".
Ele, rindo satisfeito, apenas me disse: "Porque o mais importante na vida é ter sempre uma história pra contar. Por mais que a gente tenha tudo, no final, só isso vale a pena, só isso que se tem e que se leva: histórias."
Ficamos em silêncio a ver o sol nascer e, depois, novamente, voltamos para casa.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O danado do ap

- Bora olhar aquele ap que a gente tava falando!
- Ahhh, mas ele é tão longe. E nem tem opção de ônibus perto.
- Ué, mas tá em conta. Ou você prefere olhar um mais perto, mas que vai ser o dobro do preço.
- A questão não é grana, é praticidade! E você tem carro. Eu não.
- Mas o carro é nosso. Então, o que você prefere?
- Pode ser aquele pequeno que te falei. Tá no orçamento e é perfeito.
- Mas ele não tem garagem. Quer que o carro fique na rua?
- Então, como faz?
- É, como faz?
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- É. Bora lá olhar o ap que você falou!